terça-feira, 11 de agosto de 2015

O inquietante significado do Sacrifício

por Inês de Sampaio Pacheco


O texto sobre a armadilha da vida se alimentar da vida, que me provocou de forma especial. O gancho para o despertar de tal interesse é justamente os espaços de tensão que existem entre minha cosmovisão e a do Héctor, e portanto essa diversidade alimenta uma empolgante polêmica, uma troca das mais fecundas.

O texto me despertou o interesse que já se constituía numa renitente inquietação, que me acompanha já faz mais de uma dezena de anos. E agora me apresentava a novidade de descortinar toda a exuberante faina da modernidade. Em meu tempo de menina, observei de perto as beatas, e os dramas de consciência delas - que comiam canja de galinha amiúde. E agora, diante da intensidade da experiência do Héctor, aqueles velhos conflitos morais das beatas se revelavam leves.Marcavam um contraste marcante com esses dramas de consciência que as tremendas exigências (eu diria até sobre-humanas) de virtudes impostas pela Nova Era (que eu costumo chamar de Nova Já Era, de forma bem humorada, por favor).

E então aquele relato que eu sorvia com olhos analíticos me remeteu à origem de tudo. Noé. Foi para Noé que a carne foi liberada. Para quem lê a Bíblia pelo método histórico crítico (enriquecedor, mas ainda assim não substitui a leitura sagrada) sabe que isso é um recado para o pessoal da época. E os hebreus não eram bem armados, não tinham uma cultura bélica nem tecnologia de guerra como as, então nascentes, cidades-estados. E viviam fugindo, no deserto, das nações mais poderosas, que os perseguiam para reduzi-los à escravidão. Então como fazer? Levar a horta embaixo do braço como se fosse uma baguete?

E assim, em nome da vida do povo lascado que o Altíssimo escolhera, a carne foi liberada, pois pelo deserto os hebreus podiam se fazer acompanhar pelos seus carneirinhos e cabras, que lhes davam carne e leite. A morte desses animais era dignificada pelo resultado final: manter livre de violências e abusos a todo um povo – homens, mulheres, velhos e crianças - humilde e despreparado para a guerra, alimentando-o e tornando possível as suas fugas no deserto. O sacrifício dos animais se constituía no passaporte para a liberdade de um bocado de gente desvalida.

Para um cristão, comer carne não causa escândalo ou dramas de consciência, pois o próprio filho gerado, não criado, pelo Altíssimo morreu na cruz e se oferece a seus amigos, em carne e sangue, em corpo e espírito, todos os dias nos altares da Cristandade. Para o cristão e sua escala de valores, maltratar o semelhante ou até um animal, com torturas sem sentido, com condutas inconfessáveis - e não me refiro aqui apenas à violência palpável, mas a suas formas sutis também - pode ser interpretado como um tipo de assassinato subliminar. Mas abater animais para se alimentar, never! Tá justificado.

Oferecer o alimento é ternura de mãe. E o amor cristão não é só fonte de prazer e gratificação, mas também de sacrifício e doação. Logo, trata-se da cadeia de amorosidade idealizada pelo Pai, em que um alimenta o outro, o sacrifício de um serve a manter vivo o outro. Uma coisa brutal, sem negociações, radical, mas eu tenho visto que o Pai não é assim o tempo todo bonzinho e terno e doce não. Jesus não me parece ser essa coisa derretida, basta olhar sua virilidade e justa indignação no episódio dos vendilhões do Templo. E afinal, para Aquele que pode fazer ressurgir do pó a vida, fazendo com que os nervos se colem aos ossos com a volta dos músculos, como na visão do Profeta, o que há de dramático ou irreversível na morte? Para nós a ilusão do sofrimento fatal e final, mas seria só uma ilusão... Pois lá está o Espírito Santo que participou ativamente da Criação , portanto, tudo pode criar e a tudo recriar. Diante disso, bem..., nosso sentimentalismo pode parecer coisa de menino do buchão.

Agradeço, sempre convencida que o diálogo na diversidade de formas de ver o mundo é sempre estimulante e enriquecedor. A reflexão levantada pelo Héctor muito me acrescentou, sendo matéria prima para uma boa e proveitosa reflexão. E isso vale para todos. O tema do sacrifício, tal qual o do sofrimento, é antigo como a Humanidade e nos fala muito, alcançando as profundidades das almas inquietas.

E ao despedir-me, quero expressar o quanto apreciei o tom ritualístico penitencial do texto do Héctor. Remete aos adoráveis penitentes medievais, que faziam sua catarse a céu aberto para que a todos servisse. Tal direcionamento da experiência pessoal que o querido Coroco oferece a que sirva a seus amigos e amigas é tocante. Afinal, "inteligência é aprender com a própria experiência, SABEDORIA é aprender com a experiência do outro". Ele está a oferecer uma oportunidade para que seus leitores exerçam a sabedoria, a partir de sua experiência. E esses lampejos de altruísmo é que fazem dele essa pessoa encantadora.

Gratidão por ter me oferecido material para mais reflexão. O tema do sacrifício sempre está a bater à minha porta e a pesquisa é extensa. Se Deus me der vida, ainda a vou realizar. Beleza, paz, luz e bem a todos os que me derem a alegria de ler essas minhas linhas.

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